Inteligência Artificial, contexto e Biomimética
Leitura do contexto como competência
Recentemente fiz um curso de Inteligência Artificial para Negócios pela Exame/Saint Paul. Curso introdutório sobre o tema para compreender sua abrangência e padrões de utilização. Na linha do “o céu é o limite”, quase isso, já muita coisa pode ser realizado com IA. Comecei a entender os níveis de usuários, desde perguntas simples e básicas até criar os agentes. Entre uma coisa e outra, alguns passos, algumas assinaturas pagas, mais cursos, tempo e paciência. Mas para quem pesquisa e quer sempre estar atualizado sobre assuntos, no meu caso ciência e mercado é interessante fazer algumas automações. Criar rotinas automatizadas, para buscar nos sites/ publicações de relevância para te dar resumos, novidades e convergências em ritmo programado com temas selecionados parece bom, ainda mais em tempos de sobrecarga de informações. Assim como ter o fluxo do espontâneo também vale ser mantido.
Uma das palavras que mais escutei neste curso foi: contexto.
Saber o contexto é que faz o prompt funcionar melhor. Saber o desafio, o que precisa saber, onde é possível encontrar respostas, os porquês, enfim, tudo que é pertinente ao tamanho do contexto.
Quando aplicamos o Biomimicry Thinking, (pensamento biomimético) que é uma forma de pensar para buscar soluções ou simplesmente ter ideias novas através de pesquisas de como a natureza faz o que meu design precisa fazer, começamos pela definição do contexto. A inovação mora no pensamento.
O contexto deve ser amplo o suficiente para emergir os desafios que estão relacionados para habilitar a etapa mais central da biomimética que é achar a função. A função por sua vez desarma o desafio. Vou trazer um exemplo resumido:
Contexto: uma equipe de uma determinada empresa não tem uma interação com outras áreas causando riscos operacionais
Desafio: uma cultura instalada e lideranças que favorecem as atuações individuais
Função: criar condições para que possa ocorrer melhores interações e com isso habilitar a visibilidade da interdependência
A partir deste momento, perguntamos para as tecnologias da natureza qual é a estratégia que cria estas condições descritas na função. Nem sempre é algo reto, requer uma tradução da linguagem humana para linguagem de outros seres. E na ponte da tradução mora a criatividade e o cenário análogo. Fazer pontes é criar proximidades entre dois lados que não estão em comunicação.
Acho incrível como estes processos análogos são ricos porque nos permitem mergulhar nas dores com mais leveza. Quando conseguimos encontrar a função por trás de um desafio, deixamos de atacar apenas os sintomas e começamos a enxergar o que realmente precisa acontecer para que o sistema funcione melhor. E essa talvez seja a etapa mais difícil da biomimética. A função não aparece por acaso. Ela depende de uma boa leitura de contexto.
Tenho a impressão de que muitos dos problemas que enfrentamos hoje, nas empresas, nas escolas e em qualquer coletivo, nascem justamente de leituras rasas do contexto. É comum reduzirmos desafios complexos a explicações simples, muitas vezes influenciadas por modelos culturais e pelas urgências do momento. Quando isso acontece, acabamos desenhando soluções eficientes para o problema errado. Talvez uma das maiores competências deste século não seja responder mais rápido, mas aprender a enxergar melhor.
Encontrar com o contexto no curso foi incrível. Quanto mais poderosa a ferramenta, maior a importância de compreender o cenário, fazer boas perguntas, definir limites e conectar informações que, à primeira vista, parecem não ter relação. A tecnologia amplia enormemente nossa capacidade de processar dados. Mas ela continua dependendo da nossa capacidade de perceber o que realmente importa. Em outras palavras, a IA pode acelerar respostas, mas ainda somos nós que damos sentido às perguntas.
Talvez este seja um dos grandes paradoxos do nosso tempo. Nunca tivemos acesso a tanto conhecimento e, ao mesmo tempo, enfrentamos tanta dificuldade para compreender as relações que sustentam os problemas. Navegar na complexidade não significa saber tudo. Significa reconhecer interdependências, ampliar o campo de visão e resistir à tentação de simplificar aquilo que, por natureza, é complexo. A vida faz isso há bilhões de anos. Ela não elimina a incerteza para conseguir seguir em frente. Ela aprende continuamente, adapta estratégias, reorganiza relações e responde ao contexto conforme ele muda.
É exatamente essa forma de olhar que tenho chamado de Ecologias da Governança. Um campo de investigação estratégico inspirado nas estratégias dos sistemas vivos para compreender como pessoas, organizações e sociedades podem tomar decisões mais coerentes em um mundo cada vez mais conectado, tecnológico e imprevisível.
Talvez a inteligência mais necessária daqui para frente seja a capacidade de compreender a complexidade antes de agir. De ler contextos, reconhecer relações e perceber os sinais que realmente importam. Porque nenhum sistema vivo dá um novo passo sem antes responder às condições do ambiente.
A pergunta deixa de ser apenas "o que devemos fazer?" e passa a ser: “o que este sistema precisa para preservar sua continuidade e sua capacidade de regeneração?”
É quando a vida passa a orientar as decisões que a inteligência deixa de ser apenas capacidade de resolver problemas e se torna capacidade de sustentar futuros.
………………….
Obs.: Esta reflexão conversa com outras newsletters que escrevi nos últimos meses.
Se este tema despertou sua curiosidade, talvez você goste destas leituras:





Aprendo muito com seus textos e analogias. Muito bom!
Excelente! Muito boas reflexões